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Cem anos de violência contra os palestinos

CEM ANOS DE VIOLÊNCIA CONTRA OS PALESTINOS
Mauro Santayana

(JB, 08 de janeiro de 2009)


A
declaração de Shimon Peres, de que morrem mais crianças palestinas do
que judias porque os judeus cuidam melhor das suas, é, em sua frieza e
desdém, a confissão de que se executa o projeto de genocídio que o
movimento sionista mundial estabeleceu, quando decidiu criar o Estado
de Israel. Só há duas formas de construir um Estado soberano em
território alheio: com o assentimento de seus habitantes ou com o seu
extermínio.

Os
palestinos não perceberam o que os judeus que adquiriam terras em seu
território, ainda no fim do século 19, pretendiam. Só se deram conta do
perigo em 1917, quando lorde Arthur James Balfour, em carta a Lionel
Rothschild – o banqueiro que financiava os sionistas – lhe assegurou a
decisão britânica de apoiar a criação de um "lar nacional judeu" na
Palestina. Como se encontravam sob domínio otomano e em plena Primeira
Guerra Mundial, os árabes não puderam reagir imediatamente, o que só
fariam depois do armistício.

A
Declaração Balfour é interessante, porque revela as circunstâncias
conjunturais que a originaram. A guerra na Europa estava em momento
indefinido, e os ingleses pressionavam o presidente Woodrow Wilson, dos
Estados Unidos, para que enviasse tropas ao continente. Esse documento
estimulou os ricos judeus de Nova York a exercer também sua influência
sobre a Casa Branca, e os soldados norte-americanos desembarcaram em
março do ano seguinte na Europa. O secretário do Exterior da
Grã-Bretanha teve o cuidado de assegurar, na Declaração, que o apoio
não poderia causar prejuízo aos "civil and religious rights of existing
non jewish communities in Palestine".

Essa
foi uma atitude insensata, e disso se deram conta os ingleses. Em 1920,
terminado o conflito mundial, e atribuído aos ingleses, pela Liga das
Nações, o mandato sobre o território palestino, os países árabes se
reuniram em Damasco e manifestaram seu repúdio à Declaração Balfour.
Não obstante isso, os ingleses responderam com a nomeação de um
conhecido sionista para administrar a área, Herbert Samuel. Os árabes
perceberam o que os esperava, e consideraram 1920 am al-nakbah, o ano
da catástrofe. Mal sabiam que catástrofes ainda maiores viriam, como a
destes dias em que – confirmando o projeto de limpeza étnica – escolas
mantidas pelas Nações Unidas, claramente identificadas, são alvos
escolhidos por Israel.

Desde
então, os palestinos não deixaram de protestar, de lutar pelo seu
espaço histórico. Na verdade eles são semitas que não deixaram o
território e foram, com o tempo, convertidos ao islã. Há quase um
século, são acossados por judeus europeus, que têm a cara e os métodos
de quaisquer colonizadores. Ao mesmo tempo em que o nazismo se
fortalecia na Europa e iniciava a perseguição aos judeus – mas, também,
aos outros povos que eles consideravam inferiores, como os eslavos, os
negros e os ciganos – os palestinos continuavam a lutar contra os
invasores. Em 1935, terroristas judeus assassinaram seu líder,
al-Qassam, o que provocou rebelião geral dos palestinos, de 1936 a
1939, massacrada pelas tropas britânicas e por 15 mil judeus – que
constituíram o núcleo inicial do Exército de Israel.

A
Primeira Guerra Mundial havia sido desastrosa para os palestinos. A
Segunda lhes foi ainda pior. Depois da vitória aliada, os ingleses
perceberam, com o grande homem de Estado de esquerda, Ernest Bevin,
então secretário do Exterior, que haviam cometido, mais do que um
crime, grande erro estratégico, diante dos interesses britânicos no
Oriente Médio. Bevin tentou voltar atrás, proibir o prosseguimento da
imigração de judeus em Israel e forçar a divisão do território em dois
estados – o que não conseguiu. Em julho de 1946, terroristas judeus,
sob o comando de futuros e "respeitáveis" estadistas, como Menachen
Begin, invadiram o Hotel King David, ocupado pela administração militar
e civil britânica, e mataram 91 pessoas.

Com
todos esses fatos históricos, a Organização das Nações Unidas, dominada
pelos quatro grandes vencedores do conflito (e a União Soviética foi
nisso particularmente responsável), decidiu impor aos palestinos a
presença definitiva dos israelitas. Mas foram sobretudo os
norte-americanos, com Truman, que patrocinaram o projeto: necessitavam
de um enclave na região.

Dizia
Adorno que, depois de Auschwitz, toda a cultura do Ocidente era um
lixo. O intelectual marxista estava enganado. Com o drama da Faixa de
Gaza, toda a cultura do Ocidente é um crime