O MEIO-AMBIENTE EM GAZA
É UMA DAS VÍTIMAS FUNDAMENTAIS
Erin Cunnigham. The
Eletronic Intifada / Rebelión 07/05/2009.
Inúmeros
pomares desapareceram em toda a Faixa de Gaza, granjas inteiras foram
destroçadas. Os escombros de milhares de casas destruídas emitem
amianto tóxico, enquanto a infra-estrutura em ruínas lança no
Mediterrâneo águas residuais não-tratadas. A última guerra
agravou a já profunda crise ambiental na assediada Faixa de Gaza.
Durante
toda a Operação Chumbo Derretido, o exército israelense atacou
quase todos os elementos da infra-estrutura do território costeiro.
Em toda a Faixa de Gaza, casas, lojas, fábricas, redes elétricas,
sistemas de esgoto e plantas de tratamento de água foram reduzidos a
montões de escombros.
De acordo
com uma avaliação de danos ambientais e da infra-estrutura
realizada pelo programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP,
pela sigla em inglês), o ataque de Israel não só agravou os riscos
já existentes, como criou outros novos ao contaminar o ambiente,
tanto urbano como rural, e deixar quantidades de escombros sem
precedentes após sua passagem.
O Programa
Ambiental das Nações Unidas (UNEP, pela sigla em inglês) anunciou
no mês passado que enviaria a Gaza uma equipe de especialistas
pós-conflitos para estudar os problemas que representam as
principais ameaças para a população de Gaza.
Antes da
guerra, a infra-estrutura da Faixa de Gaza já estava debilitada após
três anos de sanções e outros 18 meses de bloqueio conjunto
egípcio-israelense que proíbe a importação de todo tipo de
produto à exceção dos “essenciais”.
Muitas
regiões de Gaza, particularmente os urbanisticamente descontrolados
campos de refugiados, carecem de sistemas de esgoto adequados. Quando
existiam, costumavam funcionar com geradores ou com eletricidade
racionada. A proibição de importar os materiais necessários para
sua manutenção, incluindo cimento, aço e canos, tem deixado uma
situação desesperadora.
Um informe
da Comissão das Nações Unidas para a Coordenação de Questões
Humanitárias (OCHA, pela sigla em inglês), publicado dez dias antes
do início da Operação Chumbo Derretido afirmava que pelo menos 80%
da água fornecida em Gaza “não cumpria os requisitos de
potabilidade da Organização Mundial da Saúde”.
“A falta
de canos, peças de reposição e materiais de construção impede a
maior parte das obras de manutenção. A resultante degradação do
sistema representa um risco grave para a saúde pública”, lia-se
no informe.
De acordo
com a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO, pela
sigla em inglês), as restrições de materiais e bens deixam pelo
menos 70% do terreno agrícola sem irrigação, ao passo que as
autoridades locais têm sido obrigadas a lançar diariamente no mar
70 milhões de litros de águas residuais não-tratadas. Na melhor
das hipóteses, a falta de combustível faz com que a coleta de lixo
não seja freqüente.
Durante o ataque, as
bombas israelenses atingiram os já precários sistemas de esgoto e
tratamento de água, e isso fez com que a água limpa se mesclasse às
águas residuais em algumas das regiões mais populosas de Gaza.
Os projéteis dos
tanques atingiram a maior planta de tratamento de água na região de
Sheikh Aljeen da cidade de Gaza, e isso fez com que a água
não-tratada caísse aos borbotões diretamente nos bairros, granjas
e no mar.
Cerca de 40% das caixas
d’água nos telhados de Khan Younis foram danificados ou destruídos
e quatro poços de água foram completamente destruídos na cidade de
Gaza, Beit Hanoun e Jabaliya, de acordo com o grupo Água, Saneamento
e Higiene (WASH, pela sigla em inglês) que trabalha para a OCHA.
“Depois
da guerra, o maior impacto está sendo sentido nas regiões do norte
de Gaza, onde a maior parte das redes de água ficou destruída”,
afirma Najla Shawa, diretora de informação de WASH em Gaza. “Também
em Khan Yunis só 30% da área dispõe dos serviços de uma rede de
esgoto”.
Todo dia,
estão sendo jogados no Mediterrâneo dez milhões de litros de águas
residuais não-tratadas a mais do que antes da guerra, afirma WASH, o
que supõe uma ameaça para a vida marinha da costa e para a pesca de
Gaza.
Os mísseis
israelenses destruíram também fábricas nas áreas residenciais
urbanas e nas zonas rurais, espalhando produtos químicos
potencialmente tóxicos no ar e na terra. Afirma-se que as montanhas
de escombros que continuam caracterizando a paisagem de Gaza contêm
grandes quantidades de amianto, uma fibra mineral cancerígenas
comumente usada na construção civil.
“Os
restos das demolições causadas pelas últimas hostilidades podem
conter substâncias perigosas como o amianto”, disse por telefone
de Genova ao IPS um representante da seção de Gestão Pós-conflito
e de Desastres do UNEP. “O câncer de pulmão tem sido relacionado
com os altos níveis de exposição ao amianto”.
Segundo as
autoridades locais, foram destruídos mais de 20.000 prédios e 5.000
casas. Devido ao bloqueio, ainda não foi possível remover 600.000
metros cúbicos de escombros, grande parte dos quais foi espalhado
pelos tanques israelenses.
A terra de
Gaza tem sido atingida também pela ampla utilização de fósforo
branco por parte de Israel ao longo de toda a guerra, afirma Sameera
Rifai, representante da União Internacional para a Preservação da
Natureza nos Territórios Palestinos Ocupados. “Agora, a terra de
cultivo está contaminada pelas armas utilizadas pelos soldados
israelenses, e, sobretudo, pelo fósforo branco”, disse Rifar ao
IPS.
Segundo a
Agência Estadunidense para o Registro de Substâncias e Doenças
Tóxicas, o fósforo branco, um agente químico incendiário, pode
permanecer inalterado nos sedimentos terrestres e nos corpos dos
peixes durante muitos anos. De acordo com os estudos realizados na
Universidade Técnica de Yildiz, em Istambul, Turquia, as amostras de
terra de Gaza analisadas em fevereiro deram resultado positivo no
caso do fósforo branco.
Conforme
afirma o ambientalista e pesquisador de Amigos da Terra do Oriente
Médio, Basil Yasin, a guerra debilitou ainda mais a capacidade dos
municípios de realizar a coleta de lixo. A ONU informa que resíduos
e restos sólidos continuam amontoados nas ruas de Gaza e que os três
principais lixões da Faixa encontram-se completamente saturados.
Contudo,
enquanto durar o bloqueio e a Faixa de Gaza for privada dos materiais
de que precisa para a reconstrução, os ecologistas duvidam muito
que se possa fazer algo para tratar os crescentes problemas
ambientais de Gaza.
Trata-se de
uma crise contínua, não só de uma que tenha sido provocada pela
guerra, que sempre impede aos palestinos de desenvolver projetos
sustentáveis”, declarou Shawa ao IPS. “Fundamentalmente, isso
inclui a falta de materiais que impede a construção de redes de
água e plantas de tratamento de esgoto. Nos dois últimos meses, os
israelenses só permitiram a entrada de dois ou três contêineres
com tubulações”, afirmou.
Disse
também que as chamadas “áreas pára-choques” que Israel
construiu unilateralmente no interior da Faixa de Gaza estão
dificultando a limpeza e a avaliação do meio-ambiente no período
posterior à guerra. “Ninguém tem acesso às regiões no leste e
norte onde estão situadas as plantas de tratamento de águas
residuais”, afirmou. “As autoridades municipais não podem chegar
nessas áreas para colher amostras de água ou de terra a fim de
verificar os níveis de águas residuais”.
O UNEP
afirma que em qualquer conflito a estabilidade ambiental é
fundamental para estabelecer uma paz no longo prazo.
“Não se
podem fazer progressos significativos em termos ambientais enquanto
as fronteiras permanecerem fechadas”, afirma Rifai. “Se queremos
desenvolver Gaza e preservar seus recursos naturais, este bloqueio
deveria acabar e deveria haver liberdade de movimentação para
pessoas e materiais”, afirma Rifai. “Do contrário, é
impossível”.