http://fosp.anarkio.net/cmanarca/cma_116.html O valor educativo das assembléias - parte dois De onde vinham, em definitivo, esse homens e mulheres que não se deixavam manipular facilmente e fartos de pastores e falsos profetas, rechaçaram a autoridade e optaram pela ação direta? Vinham do mundo do trabalho. Por conseguinte, eram cidadãos simples, e por isso, para mim, motivo de reflexão para quem entende e espera sempre que as minorias dirijam e governem. A este propósito não posso menos evocar as imagens daqueles militantes cenetistas (da CNT-ES) de Aragon, que são os que mais tinha conhecimento por ter vivido como eles os acontecimentos mais marcantes de minha trajetória libertária. Pessoas normais e corriqueiras; mas dotadas de sensibilidade e de um acurado sentimento de independência. Camponeses na sua maioria, muitos haviam aprendido a ler e escrever sem ter pisado em uma escola em toda sua vida. Excelentes conversadores em geral, se expressavam com soltura, pondo em grandes apertos várias vezes os "notáveis" da sociedade ao discutirem assuntos concretos de interesse local ou regional com eles. Alguns, dada sua dedicação a leitura que a CNT disponibilizava e despertava neles, através de suas incontáveis trocas, chegaram a dominar a linguagem escrita de tal forma, que passaram a ser colaboradores assíduos dos periódicos ou revistas do movimento.
Comparando agora o nível de consciência social daqueles trabalhadores que mesmo carecendo de títulos acadêmicos, e de uma cultura oficial, chegaram adquirir uma bagagem humanística muito superior ao que se tem um cidadão mediano contemporâneo, é motivo para perguntar-se que se tem passado em tão pouco anos e de onde retiravam suas energias os trabalhadores da CNT. Responder a essa pergunta não é difícil quando se tem valorizado previamente a liberdade - cujas fontes tem de beber o ser humano para alcançar seu pleno desenvolvimento que permite o exercício dessa liberdade, dentro, naturalmente, dos limites que cada individuo tem pela relação com os outros e sua união em preservar a liberdade coletiva. Na base de minha experiência pessoal e partindo do valor determinante que tem para o homem a liberdade, eu pensaria que a formação do caráter independente e aberto que caracterizou a maioria daqueles trabalhadores contribuiu em certa medida o fato de não haver sofrido durante sua infância os efeitos repressivos e o dogma que a escola vem, desde séculos, infligindo as crianças e fazendo deles seres condicionados a obediência, dependentes e passivos portanto, e prontos para aceitar sem resistência mais tarde o mandarinato de seus opressores. Claro que isto por si só não pode ser suficiente para que um tão extraordinário fenômeno se produzira, já que, na União Geral dos Trabalhadores, essa onda de expansão creativa não teve lugar, pese o bom número de seus afiliados e tão pouco haviam sofrido os condicionamentos da escola. É precisamente o contraste entre ambos os movimentos sindicais o que me tem induzido a refletir sobre o papel educador da assembléia, cujos estímulos beneficiaram sempre os homens da CNT graças a estruturas abertas a participação responsável de todos seus membros, em oposição as fórmulas hierárquicas e burocráticas que regem a UGT desde que o grupo fundador rompera com a Primeira Internacional dos Trabalhadores dando nascimento a essa nova corrente sindical marxista que por caminhos bem equivocados pretendem todavia emancipar os trabalhadores. E digo equivocados porque o homem se faz realmente homem tendo acesso ao conhecimento de sua identidade pessoal, de modo responsável, mediante o livre expressão de seu pensamento em condições de igualdade com seus semelhantes e por livre cooperação com eles nas coisas que um considera importantes para si mesmo e para os demais. E é a assembléia a instituição na que pode levar a cabo sua experiência se nela temos as condições necessárias para um autêntico funcionamento coletivo, a saber: que favoreçam ao máximo o nível de participação, e isto o mesmo para tomar decisões e compartilhar responsabilidades que para somar energias na realização de um projeto comum. São múltiplos e vão concatenando os estímulos que provoca a assembléia e que dinamizando o indivíduo, ativam o processo de desenvolvimento de suas capacidades genuinamente humanas. Vejamos: no princípio, se é consciente de sua responsabilidade ante ao grupo e seus problemas, o indivíduo participa da assembléia com ânimo de analisar, criticar e apontar iniciativas. Como a vez experimenta uma necessidade imperiosa de afirmar-se e em função dessa necessidade busca aprovação dos demais, isto suscitará o outro desejo: de fazer os debates e ser cada vez mais útil a assembléia. E pelo afã que sente de atrair-se a simpatia de seus colaboradores, se esforçará em não discordar demasiado e escutar com respeitosa atenção seus pronunciamentos ao objeto e contrastá-los com o seus próprios e poder elaborar conjuntamente as resoluções que mais satisfaçam a todos. A saber: que por esse mesmo desejo de aprender, de coadjuvar e de ser o mais oportuno e convincente no momento, haverá chegado a necessidade de cultivar a linguagem; e a medida que for aperfeiçoando esse precioso instrumento e adquirindo o domínio da palavra, se sentirá mais seguro de si, experimentará maior avidez por leitura, aumentará seu saber e fará o caminho do conhecimento e compreender melhor os demais e, em definitivo, a ser mais tolerante e respeitoso com todos. Essa dinâmica que faz com que a assembléia não seja só um espaço onde se discute e se constrói uma nota de necessidade e de possibilidades de cada momento, e sim, também o martelo que vai forjando as mulheres e homens a luz dos pronunciamentos e das resoluções elaborados conjuntamente. E é assim como os associados da CNT, ao participarem dos debates que o projeto sindical e os problemas cotidianos suscitavam na assembléia, foram estruturando uma consciência solidária e um comportamento crítico, da mesma forma que o coletivismo aragones, fazendo da assembléia o centro de todo o desenvolvimento socioeconômico, colocando em pé o instrumento que possibilita a forja daqueles homens em seu projeto de uma sociedade nova mais igualitária e justa. Traduzido por FOSP seção Campinas - associado a COB-AIT, a ACAT e a IWA-AIT Na construção do socialismo libertário através do sindicalismo revolucionário!