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EM GAZA, ESTÃO USANDO UM NOVO TIPO DE ARMA.

EM GAZA,
ESTÃO USANDO UM NOVO TIPO DE ARMA.

Sophie
Shihab. Le Monde 12/01/2009 e Rebelión 13/01/2009.


Nos últimos dias,
as redes de televisão árabes que transmitem da Faixa de Gaza vêm
mostrando feridos de um novo tipo, adultos e crianças com munhões
ensangüentados no lugar das pernas. No domingo, dia 11 de janeiro,
dois médicos noruegueses, os únicos ocidentais que trabalham no
hospital da cidade confirmaram isso.

Os médicos Mads Gilbert
e Erik Fosse, que trabalham na região há vinte anos com a ONG
norueguesa Norwac, conseguiram sair do território na véspera, com
15 feridos graves pela fronteira com o Egito. Não sem ter que
driblar obstáculos: "Três dias atrás, o nosso comboio, apesar
de identificado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, teve que
dar meia volta antes de chegar em Khan Yunis, onde os tanques
atiraram em nós para nos deter", declararam aos jornalistas
presentes em Al-Arish.


Dois dias depois, o comboio pôde
passar, mas os médicos e o embaixador da Noruega que haviam ido
recebê-los foram retidos durante toda a noite "por razões
burocráticas" no posto de fronteira egípcio de Rafah,
semi-aberto somente para as missões de saúde. Na mesma noite, os
vidros do posto foram quebrados pelo estampido de uma das bombas
lançadas nas proximidades.

"No hospital Al-Shifa de Gaza
não vimos queimaduras de fósforo nem feridos por bombas de
fragmentação. Mas vimos vítimas de algo que tem todas as
características de um novo tipo de arma testado pelos militares
estadunidenses, conhecido como Explosivo de Metal Denso Inerte (DIME,
pela sigla em inglês)", declararam os médicos.

Trata-se
de pequenas bombas envolvidas por carbono e uma camada de tungstênio,
cobalto, níquel ou ferro cujo enorme poder de explosão se dissipa
num raio de dez metros. "A dois metros corta o corpo no meio, a
oito metros serra as pernas, abrasando-as como se tivessem sido
atravessadas por milhares de agulhas. Não vimos corpos partidos, mas
sim muitos amputados. Em 2006, houve algo parecido no sul do Líbano
e vimos isso em Gaza naquele mesmo ano, durante a operação
israelense ‘chuva de verão’. Os experimentos com ratos têm
demonstrado que as partículas que permanecem no corpo são
cancerígenas", explicaram os médicos.

Um médico
palestino, entrevistado no domingo por Al Jazeera, relatou sua
impotência em casos como estes: "Não há nenhum rastro visível
de metal no corpo, mas há estranhas hemorragias internas. Uma
matéria queima os vasos sanguíneos e causa a morte. Não podemos
fazer nada". Segundo a primeira equipe de médicos árabes
autorizada a entrar no território ocupado, que chegou no hospital de
Khan Yunes vinda do sul, entraram aí "dezenas" de casos
desse tipo.

Os médicos noruegueses têm se sentido na
obrigação de informar o que viram devido à ausência em Gaza de
qualquer outro representante do "mundo ocidental", seja ele
médico ou jornalista. "Será que esta guerra é um laboratório
para os fabricantes da morte? Em pleno século vinte, é possível
fechar um milhão e meio de pessoas e fazer com elas o que se quer,
chamando-as de terroristas?"

Haviam chegado no hospital
de Al-Shifa, lugar que já conheciam antes e depois do bloqueio, no
quarto dia de guerra. Aí encontraram um edifício e equipamentos "já
nas últimas", um pessoal exausto e moribundos em qualquer
lugar. O material que haviam preparado havia sido detido na passagem
de fronteira de Eretz.

"Quando chegam no Pronto Socorro
cinqüenta feridos de uma vez, o melhor hospital de Oslo mal poderia
atendê-los – contam. Aqui podem cair dez bombas por minuto. A
destruição de uma mesquita próxima transformou em cacos alguns
vidros do hospital. Quando soam as sirenes o pessoal tem que se
refugiar nos corredores. Sua valentia é incrível. Na melhor das
hipóteses dormem duas ou três horas por dia. A maior parte deles
tem vítimas entre seus próprios parentes; ouvem no rádio a lista
dos lugares que acabam de ser atacados e às vezes é onde mora sua
família, mas eles têm que ficar trabalhando… Na manhã em que
saímos daí, quando entrei na emergência, perguntei como haviam
passado a noite. Uma enfermeira sorriu. Em seguida prorrompeu em
soluços".

Neste momento do relato, a voz do doutor
Gilbert se quebra. "Já está vendo – se recompõe e sorri com
calma – eu também…".